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“Faça o seu melhor, prepare o seu sucessor e pavimente o seu caminho para assumir novos desafios”

Atualizado: 2 de dez. de 2022

Era uma segunda-feira abafada, mês de dezembro de 1989 no Rio de Janeiro, um dia daqueles que, na Maravilhosa, costumamos dizer que tem um sol para cada um. Chego sempre antes das 7h e passo pelos setores da fábrica onde conheço os gargalos que são gerenciados minuto a minuto. Na fundição de alumínio, tudo ok, a produção noturna fez o previsto e não teríamos problemas durante o dia. Na usinagem tudo ok. Na trefila e esmaltagem dos fios de cobre, idem, havíamos recebido na semana anterior um carregamento de vergalhões de cobre importado do Chile. Na tornearia tivemos problemas com uma das fresadoras de microengrenagens, mas nosso estoque estava com dois dias adiantado. Na estamparia tivemos problema com uma das mais de 300 matrizes e justo na fabricação das lâminas de aço silício do núcleo eletromagnético do produto, mas como o processo de recozimento está preenchido, adiantado e operando normalmente daria tempo de corrigir e evitar uma paralização da produção. As linhas de montagem estão abastecidas.


Chego à minha sala quase 60 minutos depois e recebo o meu gerente com essa notícia: “Como supervisor do PCP você já aprendeu e domina todos os detalhes e processos da produção e, vindo da engenharia, você conhece bem os produtos. Nosso diretor me pediu a indicação de um profissional e indiquei você. Agora você terá um desafio diferente, vai liderar o projeto de mudanças radicais na nossa fábrica. Teremos que implantar todas as técnicas japonesas de gestão da produção (sistema Toyota), queremos a certificação ISO9000 do nosso sistema da qualidade, precisamos implantar um sistema de gestão MRPII (sim, nos anos 80 e 90 era assim que se chamava o que viria a ser o ERP de hoje). Para isso você deverá transferir a supervisão do PCP e iniciar de imediato o seu preparo para coordenar esse projeto. Uma consultoria de ponta foi contratada para nos ajudar nesse projeto.


Podemos contar com você?”. Assim o meu gerente me comunicou o novo desafio a que estaria submetido dali em diante.

“Prepare-se que hoje à tarde teremos a primeira reunião com a consultoria e com o nosso diretor.” Mal respirei e” ...essa é a oportunidade da sua vida para te fazer chegar à gerência de produção e estou certo de que você vai encarar com determinação.” Tudo muito rápido e direto. Surpresa digerida. Imediatamente respondi: “fico feliz pela indicação e pode contar comigo.”.


Na sequência tratei de conversar o meu sucessor para organizar a passagem do bastão. Ele era um planejador de produção diferenciado, conseguia perceber problemas com certa antecedência e, por se relacionar bem com os demais planejadores e time de controle de produção, extraia o melhor dos recursos. Entendia como ninguém a arte de se relacionar com as pessoas e mantinha os supervisores da produção informados. Ele já vinha sendo preparado há pouco mais de um ano e a transição seria muito tranquila pois estava em linha com os acontecimentos e com todo o processo, além de ter o respeito de todos na fábrica. Montamos um plano de trabalho para que ele pudesse assumir a função com rapidez e qualidade.


Fiz questão de almoçar com o meu sucessor. Fomos ao restaurante da fábrica, bandejão, e durante o almoço conversamos sobre o futuro de cada um de nós, ambos muito animados e ansiosos pelos novos desafios. Fiz questão de garantir a ele todo o apoio e ao mesmo tempo pedi o seu apoio pois eu sabia que iria precisar muito na implantação das mudanças que viriam.


Cheguei à sala de reuniões da diretoria às 13h55 para a reunião das 14h. Lá já estavam o meu gerente que conversava com os consultores da empresa contratada. Ele me apresentou como líder do projeto e comentou sobre a minha experiencia na empresa. Às 14h o diretor se juntou a nós e a partir daí ele nos apresentou a consultoria e seu time, e o que esperava do projeto.


A consultoria apresentou um draft do plano de trabalho e cronograma definindo alguns targets e prazo final de 24 meses para termos tudo implantado. Fiquei superanimado com o quanto eu aprenderia e poderia passar a conhecer de novas técnicas e modelos de gestão industrial. Tudo muito ligado entre teoria e prática, realmente uma oportunidade única. Eu me sentia muito feliz por ter essa oportunidade. Assim nasceu o Projeto Renovação, nome escolhido para fazermos toda a comunicação do projeto e remetia a mudanças e inovação que tanto eram necessárias ao negócio.


Durante a reunião ficou claro que eu teria que ter um time de apoio. Todos os projetos decorrentes do plano macro seriam definidos com forças tarefa para conseguirmos ter sucesso. A organização e gestão de projetos evoluiu bastante e ganhou nomes bonitos (Ágil, SCRUM, Sprint, enfim...) porém no âmago de todos os projetos o que se deseja é entregar no prazo, completo, com qualidade e dentro do custo previsto usando somente os recursos realmente necessários.


Encerrada a reunião, com um mundo de planos a detalhar convidei os consultores para uma visita à fábrica. Assim foi feito, providenciei EPIs para todos e guiei-os num tour bem detalhado sobre cada setor da fábrica. Cada um com o seu sol, fazia muito calor e quando passamos pela fundição de alumínio sentimos o bafo dos 50 graus centígrados. Foi o setor que levamos menos tempo durante a visita. Todos suavam muito. Levei-os até o estacionamento e nos despedimos.


Minha cabeça a mil pensando em como montar o time de apoio. Pensei nos principais profissionais para esse time, afinal teríamos que ter um time forte e comprometido com as metas dessas mudanças.

Retornei à sala do diretor geral e, por sorte, o meu gerente ainda conversava com ele. Pedi licença para uma palavra sobre a reunião e eles imediatamente me permitiram. Depois de agradecer mais uma vez pela oportunidade de liderar um projeto dessa magnitude, lancei a questão: “Entendo que precisarei de um time de apoio para a coordenação do Projeto Renovação, posso escolher os profissionais para compor esse time?”.


“Pode sim, porém, o seu time terá que vir de fora dos quadros da empresa e todos deverão ser estagiários. Não podemos aumentar o “head Count” e nem prejudicar as atividades do dia a dia retirando profissionais das atividades normais necessárias. "Todos os profissionais atuais do nosso time também serão importantes em cada setor para o sucesso do Projeto Renovação, precisamos que continuem com suas responsabilidades.” Comentou o diretor, completando: “avalie e dimensione a estrutura de apoio junto com o time da consultoria e depois me apresente para ajustarmos e definirmos as contratações.”.


Ponderei sobre o grau de experiencia que seria necessário aos membros do time de apoio e que estagiários certamente não teriam. “Você vai ter a maior de todas as oportunidades que é usar a experiencia de quem já está aqui no nosso time e formar novos profissionais já dentro das novas técnicas que serão os que irão dar continuidade a tudo o que será implementado. Os estagiários trarão o olhar diferente externo, a curiosidade e a vontade de aprender. O segredo estará no processo de seleção para trazer gente boa.” Retrucou o diretor.


Concordei e entendi que o desafio ganhava outras conotações muito mais vibrantes do ponto de vista da minha evolução profissional.


Aqui ficou a grande dúvida: será que eu teria sucesso no projeto Renovação com um time composto somente por estagiários? Vou falar dessa importante etapa mais adiante.


Para mim ficou claro que manter-me dedicado e fazer sempre o melhor, além, é claro, de procurar estar sempre em evolução me preparando para o próximo passo, me deixaram exposto aos olhares dos líderes da empresa e me permitiram ser indicado para novas etapas importantes na carreira. O Projeto Renovação poderia ser um marco na carreira. E realmente foi.


Ronaldo de Carvalho Pinto

ronaldo.pinto@leading.zone

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