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AOS NOSSOS PAIS, AOS MEUS FILHOS




Ainda lembro de quando eu tinha 15a 19a 25a e quando fui mãe aos 27 anos. Aos 34ª fui mãe pela segunda vez e foi mágico igualmente. Eles cresceram ganharam asas, não preciso mais levar para escola, natação, judô, aula de xadrez e muito menos para aula de catequese, não tenho mais reunião escolar, nem sou convidada para festinhas infantis. Não levo e nem busco mais em casa de amiguinhos. Os amiguinhos já se tornarem homens muitos já são pais. Não foi diferente com os meus filhos. Os dois, homens formados. A casa vai ficando grande demais, as panelas diminuem de tamanho, os armários já estão mais vazios, não tem mais brinquedo pela casa e nem guardados em armários, ou escondidos em algum canto. Os cantos são somente cantos. Os álbuns de fotografia, acreditem, ficam amarelados pelo tempo, as folhas perdem a cola, as fotografias se libertam. Os dias parecem ficar mais curtos, não pela falta de tempo, mas sim pela finitude dos dias, meses, anos, cada dia que passa é um a menos ou um a mais, não saberia dizer como estou fazendo essa conta. Mas quando olho para nossos pais, meus, seus, deles. Vejo o ciclo se fechando, apertando, o desfazimento da bagagem carregada até aqui me parece ser uma ação necessária, muitas coisas que carregávamos já não fazem mais sentido. Vamos deixando pelo caminho, até mesmo sem perceber, reescrevendo nossa história, nossas pegadas, mudam de direção como se não tivessem controle sobre sua direção, a isso chamamos de vida ou destino? Quando olhamos ao nosso redor muitas pessoas queridas já se foram, outras prestes a partir, para onde não sabemos, não temos certeza, nos agarramos a nossa fé e a tentativa de crer que estaremos salvos em algum lugar melhor, e que não estaremos sozinhos, a solidão nos assusta. Nos traz um vazio de uma vida vivida cheia de pratos, panelas, bolos e lembranças, uma gritaria e risadas da tarde na praia, no passeio de domingo, nos aniversários importante, na festinha no buffet infantil, tudo tão vivo na memória, mas tão longe do presente, as lembranças são companhias constantes, que comprovam de que tudo foi lindo, nos mantem vivo na nossa caminha finita, marcada para acabar. Fazer grandes quantidades de comida, fazer o que cada um gosta, já não faz mais sentido. E tenho vontade de fazer para mim, sujar, comprar, temperar, marinar cozinhar apenas para uma pessoa só? Minhas mãos já cansadas, minhas costas ardem, prefiro comida rápida, minha boca já não sente o mesmo gosto, não tenho fome, qualquer coisa serve, o cheiro gostoso da comida já não me parece assim tão interessante e não desperta mais o desejo. Acho que nessa altura da minha existência, chego à conclusão de que estou cansado, o simples se tornou complexo demais, me parece desnecessário. Posso ficar com chá, biscoito, e macarrão instantâneo. Tornar os dias mais fáceis de digerir me parece ser o certo a se fazer. Escrever sobre nutrição em idosos, não é somente descrever quais nutrientes são necessários, escrever sobre nutrição em idoso é ter a certeza de que ele terá alguém para alimenta-lo de comida, amor, cuidado, companhia e atenção. Idoso não vive só de nutrientes ele carece de atenção básica, de um olhar acolhedor das suas dificuldades, dores emocionais e emoções já não tão claras, ele precisa de alguém que o ajude a entender suas confusões, suas saudades e sua percepção de finitude. Precisamos cozinhar para nossos idosos, assim como eles fizeram conosco, precisamos alimentar nossos idoso de cuidados e amor. Retribuir minimamente quem nos trouxe até aqui. Nenhum de nós vive somente de comida colocada no prato. Na minha velhice quero ser alimentada também de amor. Se não, também vou me recusar a comida do prato.

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